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Nascimento – Parte 1
A coruja albina não se alimentava a mais de 2 dias e algumas de suas companheiras tambem não. Aquela floresta era uma das ultimas restantes, os galhos retorcidos e duros de suas árvores antigas eram a prova da dificulade de se manterem vivas. Os roedores, aves, insetos e todos os outros animais se refugiavam apenas na extensão e nos domínios desse pequeno oasis, era o único lugar onde seres tão vivos ficariam seguros nesse estranho mundo cinza: florestas eram cada vez mais raras.
A coruja, quieta, observava um casal de ratos e um sapo marrom. Seu estômago roncava metros acima, sobre uma folha amarela. Um morcego atento observava um camaleão preguiçoso e destraído em um tronco seco e, logo em seguida, em um voo rasante e certeiro, o devorava; uma raposa prateada esperava, assim como todos os outros animais, ansiosa, pela chegada do Salvador. Na verdade, não apenas os animais, mas cada folha, tronco, musgo e mofo daquela velha e sofrida floresta, esperava por aquela noite. E seria uma questão de tempo até que Ele chegasse.
A noite já ia alta quando a estrela incandescente cortou o céu. Alguns animais se assustaram, outros não. O velho cervo de galhos arranhados permaneceu em silêncio, olhava para cima, observando, pelas fendas das árvores, o estranho astro brilhante. Porém, foi a pequena raposa a primeira a ver a estranha figura que adentrava a floresta e, correndo, se aproximava dos animais: alta e nua, a mulher tinha sua pele coberta por centenas, ou talvez milhares, de triângulos tatuados por todo o corpo, inclusive nas palmas de suas mãos e face. Algumas haviam dado origem a grandes quelóides geométricas. Seus pés descalços estavam sujos de musgo, sangue coagulado, argila e areia. Seu cabelo, longo e negro, voava de forma sutil enquanto seu corpo corria. Sua enorme barriga parecia um intruso: grande e pesada demais para um corpo tão magro. Em sua mão esquerda, a mulher trazia um estranho objeto: uma flauta feita de ossos e pedaços de animais. Uma coluna de uma serpente enrolada em seu eixo, bicos de abutres do deserto e um crânio de um coiote filhote, artesanalmente grudados com amarrações de arames e soldas toscas.
A coruja, rapidamente, voou para o solo para poder assistir tudo mais de perto.
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