
Essa semana eu assisti um filme que tocava em um assunto bastante controverso, pois há quem repudie o autor de tal ato, e há quem não dê a mínima. Estou falando de suicídio. O filme chama-se ‘Poesia’ – ‘Shi’ – e é uma produção coreana. Não vou me aprofundar no filme, mas no assunto pelo qual ele trata. No mesmo dia, após assistir o filme, fui ao twitter olhar as atualizações e dei de cara com um tweet de uma amiga que há bastante tempo não converso. Através desse tweet pude me surpreender com a quantidade de informação, sentimento e realidade que pude me deparar. Lá ela contava sobre um dia que havia chegado na faculdade para a aula e encontrou tudo fechado. Esperou por um bom tempo e nada. Nem professores e nem alunos, apenas o silêncio e um vento frio que insistia em ficar fazendo companhia. Quando ela estava indo embora encontrou com um segurança que lhe disse o porquê de tanta estranheza. Um dos professores tinha se machucado seriamente e por isso não haveria aula. Mais tarde ela descobriu que o tal professor não tinha apenas se machucado, mas morrido. Ele se atirou do 11° andar da faculdade, mesmo local onde ela estava esperando algumas horas antes. Em seus últimos tweets do dia, ela passou algumas informações a mais, além de se questionar o que leva uma pessoa a cometer tal ato. Ela diz não entender, já que o professor era doutor, estudou “milhões” de anos e ainda teria, no mínimo, 45 anos pela frente. Lendo isso eu pensei: eu também não sei o que leva uma pessoa a ir tão a fundo ao ponto de se suicidar, mas com certeza são motivos que vão além de conhecimento ou status, – mesmo que as vezes até motivos como esses possam ser suficientes – e que ter estudado por “milhões” de anos ou ser doutor não o faz ser menos infeliz que qualquer um. Isso com certeza vai mais além, penetra fortemente no interior de uma pessoa, poluindo mente e coração. Poluindo as esperanças, as lembranças, as motivações e etc. Deve existir um ponto pelo qual desistimos de tentar encontrar um motivo pelo qual viver, já que logo morreremos. Eu continuo sem entender o processo, pois por pior que eu esteja ou que um dia fique, a minha cabeça não capta essa vontade de fim. Mas consigo entender a dificuldade que para algumas pessoas possa ser e que as vezes é o única forma de se “libertar”.
Ainda lendo as atualizações dessa amiga, encontrei um link que me levou até o blog do professor. Ele se suicidou dia 20 de Outubro desse ano. Sua última postagem foi do dia anterior a esse, com os seguintes dizeres:
“É hora de fechar este blog: eu não sei mais escrever.
“Ontem cheguei ao fundo do poço. No começo do dia encarei o abismo por longos minutos, decidindo se dava um passo à frente ou não, depois vaguei o dia todo a pé sem rumo, sem lugar para ir e sem praticamente falar com qualquer pessoa, só para terminar o dia muito cansado.”
“Na verdade, dizer que eu estava muito cansado é pouco. Em minha sala de trabalho há um gaveteiro móvel pequeno, de três gavetas; apaguei as luzes da sala e da frente dela, movi o gaveteiro alguns centímetros e deitei no chão, entre ele e a parede, pateticamente escondido do mundo. Oito de cada dez pensamentos meus eram realmente deprimentes e os outros dois não significavam nada. Dormi sentindo o frio do chão e balbuciando qualquer coisa, tendo comido durante o dia todo um cookie, um Polenguinho, um copo de suco de laranja, um café, uma esfirra, mais um café e duas bolachas.”
“E hoje às seis da manhã eu estava de pé de novo. Para quê?”
“Estou acabado, e acho que este blog deve também acabar: assim seja.”
Nos comentários dessa postagem existia uma mensagem de alguém, pedindo para que ele não fizesse isso. Acredito que o pedido tenha sido referente ao fechamento do blog, mas acabou se encaixando no que se passava na cabeça do professor. Em resposta ele disse:
“Eu vou continuar, talvez e provavelmente, mas em outro lugar e com outro nome, se isso acontecer mesmo: eu preciso me reinventar, pois eu meio que me descriei…
“Fica o link do que eu sinto agora: http://youtu.be/JlDnevvKud0“
“Um abraço!”
Nesse dia eu estava só em casa, assim como a minha amiga esteve na faculdade. Apenas rodeado pelo silêncio e o frio. Cliquei no link que ele deixou nos comentários e escutei uma parte em loop de ‘Is There Anybody Out There’ do Pink Floyd. Ao escutar a música senti tristeza, mas ao mesmo tempo uma sensação de satisfação e libertação. As notas tocadas parecem representar uma tentativa de fuga sem fim, onde avançam fazendo um tom agúdo, mas no fim sempre retrocedem, tornando o tom mais grave.
Senti uma enorme necessidade de compartilhar isso com vocês. Não sei bem o porquê, apenas senti. E já que estamos reunidos aqui para questionar as coisas e exercitar um pouco nossas filosofias, é uma boa oportunidade para comentarmos esse tipo de assunto.
O que acham do que leram? O que acham do que ouviram? Alguma resposta? Tem mesmo alguém aí fora?